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Escola cristã: ambiente de amor, respeito e sensibilidade

"Ainda que tivesse o dom de profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, se não tivesse amor, nada seria”. (1 Cor.13.2)




Por: Débora Bueno M Oliveira


Em João 13, versículo 35, lemos que “todos saberão que são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros”. Portanto, a melhor maneira de uma escola ser reconhecida como cristã é colocando em prática sua capacidade de amar e ensinar a amar o próximo.


Como amar e demonstrar amor ao próximo em um ambiente complexo, dadas as suas características de pluralidade, de conflitos nos relacionamentos, de intencionalidade pedagógica, de mudanças rápidas e tantas exigências sociais?

Primeiramente, colocando-se no lugar da outra pessoa, entendendo suas necessidades e dificuldades e oferecendo ajuda. Agir para o bem do outro sem esperar nada em troca.


Isso será possível, exercitando a linguagem do amor:

• Sendo gentil com todos que encontrar pelo caminho;

• Respeitando os outros, apesar das adversidades;

• Desenvolvendo a empatia com o próximo;

• Sendo voluntário e contribuindo com causas nas quais acredita;

• Compartilhando o bem, sendo disseminador de boas palavras.


Escolas cristãs devem ter como objetivo uma educação transformadora, crítica, ética, voltada para a formação do aluno-cidadão. Devem aspirar que seus educandos saibam lidar com mudanças rápidas e as novas exigências da sociedade tecnológica sem se desumanizarem, priorizando os vínculos afetivos, principalmente reconhecendo a sua total dependência como criatura na relação com o seu Criador; preparando seu educando para que seja capaz de desenvolver relacionamentos pessoais responsáveis, ternos e respeitosos, com Deus, consigo mesmo e com o outro.


Escolas cristãs precisam ter como meta, encorajar o estudante a desenvolver espírito de cooperação, solidariedade, autodisciplina, respeito próprio, respeito ao outro como criatura de Deus, assumindo de forma consciente suas responsabilidades e participação na construção de uma sociedade mais justa e solidária.


De pouco adianta o processo educacional trabalhar a racionalidade do aluno se os valores - o que importa na vida - não é voltado para o desenvolvimento da sua sensibilidade.


Diversas áreas exigem o desenvolvimento da sensibilidade - uma faculdade cognitiva, por meio da qual se conhecem os valores, ou seja, o que vale para o ser humano. Algumas delas são:


• A sensibilidade para cuidar de seu próprio físico.

• A sensibilidade para a verdade.

• A sensibilidade para a beleza.

• A sensibilidade para o moral para o bem.

• A sensibilidade para o sagrado, para o transcendente.

• A sensibilidade para o valor do símbolo.

• A sensibilidade para o outro.


Uma das características do processo educacional moderno-contemporâneo é seu apego a uma perspectiva materialista da realidade. Ao longo de muitos anos, a educação tem sido pensada e efetivada a partir da premissa básica de que a materialidade é tudo o que há, sendo ela própria o ponto de partida para uma compreensão adequada da realidade.






No entanto, há poucos anos, ao estabelecer os princípios fundamentais para a educação no século XXI, a UNESCO reconheceu a crise de valores morais em que vivemos, apontando como condição para a superação da mesma, a ultrapassagem da “tensão entre o espiritual e o material” (DELORS, 1999, p. 15).


Segundo o relatório da Comissão internacional sobre Educação para o século XXI, “cabe à educação a nobre tarefa de despertar em todos (...) esta elevação do pensamento e do espírito para o universal e para uma espécie de superação de si mesmo” (DELORS, 1999, p. 15-16).


Segundo esse Relatório, “Aprender a conviver” é reconhecer o valor das relações pessoais que levam à compreensão do outro e à percepção das interdependências; proporcionando um ambiente que fortaleça o respeito por valores, como a compreensão mútua e a paz. E “Aprender a ser” que se apresenta na valorização do indivíduo como um todo, auxiliando-o na capacidade pessoal de tomar decisões com discernimento, considerando todas as suas potencialidades como pessoa complexa, ou seja: memória, raciocínio, senso estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se.


Escolas cristãs sabem que “O que atenta para o ensino acha o bem, e o que confia no Senhor, esse é feliz. O sábio de coração é chamado prudente, e a doçura no falar aumenta o saber”. (Pv 16.20 e 21), por isso entendem que a educação norteada pela concepção bíblica de sociedade implica em desenvolver uma cultura que considere Deus seu fundamento, amor e verdade, bem como, em cultivar valores e princípios que conduzam o ser humano a um relacionamento saudável com seu Criador, consigo mesmo, com o próximo e com o ambiente no qual está inserido.


O processo educacional, nessa perspectiva, tem por objetivo a formação integral do ser humano, associando saberes teóricos a saberes práticos, considerando os valores e princípios ético-morais presentes na cultura cristã.


Dessa forma, a formação integral do ser passa também por educar para a sensibilidade. E sensibilidade, geralmente, está associada à arte e, na esfera do ensino, arte e educação se completam.


Se considerarmos as definições comumente encontradas nos dicionários, teremos que “Arte é um fenômeno eminentemente humano, através do qual damos sentidos e significados ao mundo que nos rodeia”; enquanto “Educação é a aplicação de métodos próprios para assegurar formação e desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano; pedagogia, didática, ensino”.


Nesse contexto, a arte, e seu fazer artístico, não pode ser entendido nem limitado ao simples papel recreativo, mas deve ser compreendida como instrumento pedagógico que viabiliza e contribui para o desenvolvimento dos alunos que ampliam seus olhares em relação ao mundo, seu potencial cognitivo, seu emocional e seus relacionamentos intra e interpessoal.


Os Parâmetros Curriculares Nacionais na proposta da área de Artes, para o Ensino Fundamental, dizem que: a educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico, que caracteriza um modo particular de dar sentido às experiências das pessoas. Por meio dele, o aluno amplia a sensibilidade, a percepção, a reflexão e a imaginação.


A Dra. Maria Teresa E. Mantoan (2003), afirma que, “ambientes humanos de convivência e de aprendizagem são plurais pela própria natureza e, assim sendo, a educação escolar não pode ser pensada nem realizada senão a partir da ideia de uma formação integral do aluno – segundo suas capacidades e talentos – e de um ensino participativo, solidário, acolhedor”.


Se entendermos, assim, a escola como ambiente de convivência plural e a formação integral como imprescindível para um ensino solidário e acolhedor, bem como o papel e a contribuição da arte e da sensibilidade na esfera educacional, faz-se necessário recordarmos as diferentes visões de ensino e aprendizagem que já foram percebidas, ao longo da história, a saber: (a) da cultura grega, recebemos a ênfase dada à racionalidade e, consequentemente, ao conhecimento intelectual; (b) houve, ainda, a fase de valorização da memória, conseguir memorizar dados e extensos textos, era tido como sinônimo de inteligência; (c) caminhamos depois no sentido da supervalorização da ”construção” do conhecimento e desdobramentos acarretados pelo entendimento de que a organização do pensamento, o processo cognitivo, as técnicas de transmissão de informações e o uso da tecnologia na aprendizagem eram importantes no processo de construção não apenas do conhecimento, também na construção do sujeito; para, finalmente, chegarmos a uma nova constatação; (d) é necessário educar a sensibilidade, é fundamental desenvolver a capacidade do aluno de perceber-se e perceber o outro e o mundo à sua volta.


Entre os saberes (ou inteligências) exigidos no novo milênio está a inteligência emocional. Segundo Daniel Goleman, em seu livro: Inteligência Emocional – A Teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente (2011). "As emoções, (...), são importantes para a racionalidade. Na dança entre sentimento e pensamento, a faculdade emocional guia nossas decisões a cada momento, trabalhando de mãos dadas com a mente racional e capacitando — ou incapacitando — o próprio pensamento."


Ainda segundo Goleman (2011): A questão é: como podemos levar inteligência às nossas emoções, civilidade às nossas ruas e envolvimento à nossa vida comunitária?


O ensino de Artes, se constitui em importante instrumento para que os alunos compreendam a si mesmos e aos outros, compreendam a sua própria realidade, na expressão de seus sentimentos, emoções, desejos e projetos, contribuindo para sua autonomia pessoal e social. Contribui, ainda, para o conhecimento físico, biológico, lógico-matemático, químico, da linguagem oral, escrita, entre outros, tão necessários na idade adulta.


Essa afirmação pode ser corroborada pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que dentre as competências definidas como alvo da Educação Básica, está a de nº 4 que diz: o aluno deve utilizar diferentes linguagens, para expressar-se e partilhar informações, experiências, ideias, sentimentos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo.


Ruben Alves, em seu livro “A arte de educar” nos diz que: A primeira tarefa da Educação é ensinar a ver (...). A educação se divide em duas partes: educação das habilidades e educação das sensibilidades. Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido. Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria nos dá razões para viver.


O desenvolvimento do ser integral e integralmente realizado, alvo da educação, pressupõe que todos os aspectos constitutivos do ser humano precisam ser considerados ao se estabelecerem as áreas a serem trabalhadas com os alunos. Por isso, é importante lembrar que a educação da sensibilidade não invalida o conhecimento intelectual, as abstrações da filosofia, as relações causais da ciência, a utilidade da tecnologia, mas abre uma nova frente, um novo campo a ser explorado pelos que se dedicam à educação. É essencial para amar o próximo, ter compaixão, empatia; lembrando que empatia é a habilidade de conhecer as emoções dos outros.


Somente conseguiremos reconhecer os sentimentos dos outros quando formos capazes de conhecer as nossas próprias emoções – as raízes dos nossos instintos de preservação, de defesa, de fuga, de ataque... Ou seja, precisamos estar emocionalmente conscientes para, então, podermos “ler” os sentimentos dos outros.


Que nas escolas cristãs, seja possível encontrar esse ambiente de amor, sensibilidade e respeito, conforme nos recomenda o apóstolo Paulo escrevendo aos tessalonicenses: “E o Senhor vos aumente, e faça crescer em amor uns para com os outros, e para com todos, como também o fazemos para convosco”. (1 Tes. 3:12)



 

Profª Débora B M Oliveira


Consultora Educacional.

Graduada em Letras e Pedagogia. Mestre em Educação. Exerceu funções de Professora, Coordenadora e Diretora Escolar.

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