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Desigualdade, educação e o desafio da retomada

Updated: Apr 22

A pandemia do novo coronavírus nos colocou em uma nova rota. Nesse sentido, há que se pensar os impactos na educação brasileira, desigualdades, relação com os pais e estratégias inovadoras de retomada.

Por Iolene Lima


O século XXI iniciou conturbadamente. Ninguém pediu, escolheu ou planejou a pandemia, mas ela chegou, desorientou o planeta e estabeleceu novas rotas, novos “jeitos” de viver e trabalhar. Desde os países mais desenvolvidos aos mais pobres, ninguém escapou do medo do contágio, da presença silenciosa do vírus ou da sensação de insegurança. Apesar de tantos estudos e pesquisas científicas avançadas em tantas áreas, fomos pegos de surpresa pela Covid-19.


Ainda passamos por momentos complexos, com a segunda onda da doença no país e cientistas falando em quarta onda na Europa; sem falar nas questões econômicas que tanto nos abalam. O efeito será sentido ainda por anos a fio, se não houver uma velocidade maior nas ações de recuperação e combate aos efeitos da pandemia em todas as áreas.



Efeito pandemia na educação


O panorama na área da saúde é assustador, com a 2ª onda provocando recordes absurdos de contágio e mortes no Brasil, mas existe ainda o quadro horripilante que não é medido por indicadores em tempo real: a aprendizagem das crianças e jovens num quadro de desigualdade sem tamanho.


Enquanto algumas escolas conseguiram implementar o ensino remoto (apesar das dificuldades técnicas e de formação docente), outra grande parte dos alunos ainda continua desassistida. Conforme apontam pesquisas recentes, a pandemia de COVID-19 gerará perdas de aprendizagem significativas e deverá aumentar a evasão escolar e as desigualdades escolares. Uma geração de crianças e jovens tem sido afetada pelos impactos educacionais e sociais da pandemia, infelizmente os mais vulneráreis.


De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, (UNESCO), agência da ONU responsável por acompanhar e apoiar a educação, a cultura e a comunicação no mundo, a pandemia da COVID-19 já impactou os estudos de mais de 1,5 bilhão de estudantes em 191 países – o que representa cerca de 91% do total de estudantes no planeta.


Os estudos sobre os efeitos da pandemia de Covid-19 na Educação, realizados em diversos países, evidenciam perdas significativas de aprendizagem, mesmo com a adoção do ensino remoto (Azevedo et al., 2020; Engzell, Frey & Verha gen, 2020; Maldonado & De Witte, 2020; Souza et al., 2020; Yarrow, Masood & Afkar, 2020), prejuízos no desenvolvimento infantil (López Bóo, Behrman & Vazquez, 2020); existem ainda outras pesquisas que apontam redução dos anos de escolaridade, perdas de rendimento futuro e queda na produtividade e no PIB dos países no longo prazo. Sentiremos a onda COVID-19 por um longo período ainda.



Contextualizando a educação no Brasil


Uma nação próspera se constrói com bases sólidas na educação. Países que investiram em educação logo após a Segunda Grande Guerra, por exemplo, alavancaram sua economia após uma década. Educação precede economia forte e melhor qualidade de vida. Sua não priorização produz um círculo vicioso e causa impactos em todas as grandes áreas de uma nação. E a questão não é só investimento financeiro em pauta.


Como assim o dinheiro não resolve os problemas? O Brasil é um dos países que mais investe em Educação. Segundo o relatório Aspectos Fiscais da Educação no Brasil, divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional, ligada ao Ministério da Fazenda, o país investe em educação pública cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), valor tido como superior à média de 5,5% destinada à área por parte de países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os resultados alcançados em sala e avaliados por estudos técnicos e comparativos internacionais, no entanto, deixam o Brasil entre os últimos colocados no que se refere ao desempenho escolar. Mas o que acontece então?


Falta eficiência. Estudos feitos pelo INSPER mostram que a escolaridade do jovem brasileiro está uma geração atrás da escolaridade do chileno. Pelo cálculo realizado, a geração chilena nascida em 1964 atingiu a marca de dez anos de escolaridade, enquanto no Brasil essa média só foi atingida pela geração nascida em 1986. Ou seja, estamos falando de capital humano, importante e influenciador: estes pais exercerão influência menos positiva sobre seus filhos, algo que seria muito diferente se tivessem escolaridade maior.


O país ainda sofre com a má formação docente, currículos desarticulados com a realidade do século XXI, carga horária escolar inferior a de países desenvolvidos, falta foco em tecnologia e ainda pouca valorização da educação infantil como primeiro segmento da educação básica. Quando se avalia a relação entre a despesa com os alunos e o retorno traduzido nas evidências, nota-se que o resultado não é satisfatório. Colômbia, México, Peru e Chile têm gastos muito próximos aos do Brasil, com desempenho superior ao nosso. Uma das razões é que o Brasil gasta mais com ensino superior, praticamente a metade dos investimentos, enquanto a educação fundamental recebe investimento muito menor. Nem falamos da educação infantil, cujos investimentos são menores ainda.


Mas, e agora, diante do cenário de caos causado pela pandemia? Obviamente, a crise alcançou brutalmente a educação. Fomos o único país do mundo a manter as escolas fechadas por tantos meses. Vimos leis, decretos e planos abrindo e priorizando shoppings, bares e restaurantes e mantendo escolas trancadas. Praias lotadas e escolas fechadas. Que mensagem na verdade estamos passando? O vírus chega na escola, mas não entra nas praias e no comércio?


A pandemia apenas potencializou ou explicitou a defasagem do modelo educacional brasileiro, nosso analfabetismo digital ficou visível. A Covid-19 trouxe consigo o isolamento social e com ele mudança de paradigmas chegaram. A velocidade rumo ao mundo digital acelerou. Pelo simples fato de o isolamento social ter obrigado o mundo a se adaptar às formas digitais de trabalhar, ensinar, aprender e interagir. E nossa reação? Dezenas de cidades brasileiras, em diferentes estados, cancelaram o ano letivo de 2020 pois não conseguiram trabalhar nada com seus estudantes... Nada! Nenhuma aula on-line, nenhuma cartilha ou material impresso, nenhuma aula via rádio ou outra mídia. Que efeito isso causará em uma década? Quem pagará essa conta? Pois a conta vai chegar, isso é fato!


Educação pública, privada e desigualdades


Uma questão a se pontuar é a desigualdade gigante entre os sistemas públicos e privados da educação básica. Enquanto alunos de escolas particulares aprendem por meio de diversos recursos e estratégias combinadas, como vídeo ao vivo ou gravado, envio de tarefas, mentoria e sessões em grupos menores para tirar dúvidas, muitos estudantes das escolas públicas sequer têm acesso à internet. Ano letivo cancelado, que lástima e que vergonha nacional.


Na verdade, nenhuma instituição estava preparada para esse cenário de “guerra” que estamos 16 vivendo, por melhor que estivesse equipada ou que os professores utilizassem mais tecnologia. A grande maioria dos professores não estudaram ou não estavam preparados para ensinarem à distância. São meses e meses sem a convivência social, sem interação, pressuposto básico da relação de aprendizagem entre sujeito, conhecimento e mediador.


A rede privada saiu na frente, mobilizou professores, gestores, técnicos e garantiu escolarização, sem prédios ou salas físicas aos seus estudantes. Mas, mesmo essa rede ainda sofreu. Em muitos locais, vimos escolas preparadas, com todos os protocolos sanitários, impedidas de retornar. Algumas redes se uniram e investiram em formação docente voltada à tecnologia, resposta frente à necessidade emergencial.


Isso sem falar em outro problema que no fundo todos temos ciência, mas foi escancarado pela pandemia, que é a desigualdade social de acesso a tecnologias, o que, na Educação, causa um abismo entre aqueles que podem dar continuidade ao seu processo de aprendizagem e outros que sequer possuem um dispositivo eletrônico com conexão à internet dentro de casa. O resultado é uma inevitável acentuação da desigualdade de acesso não só ao ensino de qualidade, mas do ensino básico, causando um déficit de aprendizagem ainda maior do que já temos entre alunos da rede pública e da rede particular.


Relação com as Famílias


Outro fator que precisamos analisar é a relação das famílias com as escolas. A grande maioria estava afastada das escolas, e com a realidade das crianças e jovens em casa, muitos perceberam que nada sabiam sobre o aprendizado de seus filhos.


Ao terem de acompanhar a rotina de estudos de seus filhos, várias famílias perceberam a necessidade de estarem mais próximos e alinhados com o material didático, com as metodologias adotadas pelas escolas e professores. Esse processo que ainda vivenciamos tem seus desgastes para ambos os lados. Os familiares e responsáveis se veem sobrecarregados com essa nova demanda combinada ao trabalho em casa ou ao home office, uns cobrando a função docente da escola e outros em pânico, sem saber como atender seus filhos. As escolas ficaram expostas, não que isso seja ruim, com pais e mães assistindo aulas, as instituições passaram a ser mais cobradas em relação ao processo de ensino. Mais tensão no ar.



Retorno gradual e planejamento como resposta


Estamos, agora, diante do retorno presencial em diversos locais, alunos voltando, professores preparando aulas mais inovadoras, pois aprenderam que o virtual chegou para ficar. O famoso mundo híbrido. Alguns historiadores já estão dizendo que de fato entramos no século XXI em 2020. Um marco para a humanidade, de dor, tristeza, de luto, mas também de aprendizagens e superação. De inovação e criatividade.


Toda crise é uma oportunidade para aprendermos algo novo, para sairmos do status confortável. Porém, as crises ensinam aos que estão abertos ao novo, que aceitam a condição de mudança. O mundo mudou, e a escola nunca mais será a mesma. Bem-vindo ano letivo de 2021! Que as novas relações nos levem além, rumo a tempos melhores.


Para a retomada a maior questão se chama PLANEJAMENTO! Não engessado, mais flexível, empático com a nova realidade e altamente gerenciável.

Não podemos negociar a qualidade do processo educativo, portanto, o acompanhamento diário somado às evidências (diagnose e evolução) são mais que necessários.


Enfim, é comprovado que as crises globais ao longo da história provocaram grandes inovações e invenções. É certo que vivemos dias complicados, tensos e tristes, mas precisamos usar essa experiência como mola propulsora para revertermos o quadro, para melhorarmos o cenário educacional brasileiro, ampliando o acesso à educação de qualidade para todos. Um país forte economicamente se faz alicerçado numa educação de qualidade, que gere competências necessárias para o século XXI: adaptação, inovação, empatia e criatividade.


Mantenha a equipe motivada em meio ao caos, caminhe ao lado dos professores, gere aprendizagens significativas para todos os atores envolvidos no processo (alunos, professores, colaboradores e pais) e estenda as mãos às famílias. Isso junto trará mais segurança a todos e sua escola passará para o índice daquelas que não somente sobreviveram, mas que geraram conteúdo e fizeram a diferença em suas comunidades locais.


Educação é vida na vida, gera e produz vida!



Iolene Lima

Pedagoga com diversas especializações e MBA em Gestão de Instituições Escolares. Mestranda em Transformação Digital. Conselheira da AECEP, conferencista, escritora, consultora do Instituto Hexis e Diretora do Colégio Shunji Nishimura / SP. www.iolenelima.com.br